Por que reescritas?

Bianca de Paula

Coordenadora Pedagógica da Educação Infantil e Fundamental I

 

Para ensinar nossos alunos a escrever bons textos optamos, nas séries iniciais, pelo trabalho com reescritas. Abaixo vamos mostrar como este trabalho é realizado e o quanto é importante para a formação do bom escritor. Este artigo do blog também tem a intenção de mostrar a diferença entre a redação escolar, muito comum nos currículos escolares, e a produção de textos – prática mais atual e completa para o ensino do ofício de escrever bem.

A escrita é uma das ferramentas mais importantes que o ser humano possui para se comunicar. Indivíduos que a dominam e se expressam bem têm mais oportunidades, sucesso profissional e pessoal.  O desafio é escrever com coerência, criatividade, saber escolher as palavras, preocupar-se com a grafia correta, revisar o texto inúmeras vezes, procurar surpreender, emocionar, informar e transmitir a mensagem desejada, buscar em outras fontes recursos para o texto que está sendo escrito, dominar a leitura como meio para a escrita, etc. Todas estas habilidades citadas não são de um escritor profissional e sim de todos que se preocupam em atender os pré-requisitos de uma sociedade cada vez mais exigente neste sentido. 

Diante destas necessidades nossa escola está preparada para formar alunos que lidem com a leitura e a escrita de forma completa e inteligente.

As propostas de redação sempre foram consideradas pelas escolas tradicionais como o único meio de fazer com que os alunos aprendessem a escrever textos. Nestas redações, sempre se propõe um tema determinado ou livre, sem a preocupação com os gêneros textuais. Os tipos textuais não são apresentados, como se todos pudessem ser escritos da mesma forma e tivessem as mesmas características. Geralmente no trabalho com redações, o foco não é ensinar a escrever bem, é somente avaliar como o aluno escreve. Nesta avaliação são usualmente levados em conta dois aspectos: a criatividade e a ortografia. Não são considerados os aspectos discursivos do texto, extremamente importantes para uma escrita de qualidade. Além disso, geralmente não são oferecidos aos alunos modelos de textos de qualidade.

É por este motivo que a reescrita é uma proposta muito mais completa do que as redações e que permite ao aluno, a partir do texto modelo que será reescrito, olhar para diversos aspectos da língua escrita, ao longo da escolaridade. Segundo Luize (2008, s./p.):

Diante da tarefa de escrever um texto já conhecido – por exemplo, uma narrativa –,

os alunos podem tomar uma escrita como referência e se debruçar sobre ela.

Não se trata de uma cópia, mas de uma imitação,

o que demanda um processo de desconstrução e reconstrução do texto.

Reescrever textos de qualidade é importante para que o aluno entre em contato com a leitura e a escrita de modo que possa aprender a escrever levando em conta a forma como se escreve e não somente o que se escreve. Além do mais, reescrever um texto conhecido permite ao aluno não se preocupar, naquele momento, com a invenção do conteúdo e sim se focar na forma do texto, na escolha das palavras, para atingir e surpreender o leitor em potencial.

Além disso, as reescritas também podem trazer propostas de modificação no texto, mas não se trata de um mero exercício de criatividade como nas redações, a tarefa é muito mais complexa já que para continuar um texto, mudar seu final ou fazer inserções, é preciso garantir a coerência temática e textual. A compreensão dos eixos de significação já estabelecidos no texto também é fundamental para uma modificação coerente.

Após este trabalho com reescritas, os alunos, em séries mais avançadas, produzem textos de autoria (neste caso, a aluno cria o conteúdo do texto)  mas com muito mais conhecimento e propriedade, visto que leram, analisaram e reescreveram textos de autores profissionais. Como afirma Teberosky (1997, p. 99),

Quando propusemos o procedimento de reescrita em classe, nosso

objetivo era fazer com que as crianças imitassem o comportamento do outro,

sendo que o “outro‟ era um profissional da redação escrita –

isto é, estávamos estimulando uma espécie de pedagogia dos bons modelos.

O trabalho com as reescritas permite também que a gramática seja estudada a partir dos textos. Os alunos passam a conhecer o uso correto da gramática, já que o que importa, no início do Ensino Fundamental, é saber utilizar nos textos recursos oferecidos pela gramática e não apenas saber nomear e definir classes gramaticais. Por exemplo, é mais importante saber utilizar verbos no texto do que saber conjugá-los fora de contexto.

Para este tipo de trabalho consideramos alguns aspectos relacionados à faixa etária e ao que as crianças são capazes de produzir com certa autonomia.  Com crianças em fase de alfabetização propomos reescritas de textos que saibam de memória, como parlendas, canções, versinhos etc. A reescrita destes textos de memória são favoráveis para a alfabetização já que o aluno precisa pensar nas letras que vai colocar para reescrever e não no conteúdo do texto, que já está memorizado.

Outra boa situação é a reescrita coletiva, que pode ser feita em pequenos grupos ou com a sala toda. Nesta proposta, os alunos ditam e o professor é o escriba (escreve na lousa ou em um cartaz o que os alunos ditam discutindo com eles a melhor forma de escrever). Portanto, todas as decisões são tomadas em conjunto, fazendo com que os saberes de todos circulem durante a produção de textos, proporcionando ricas discussões sobre como escrever. As propostas de reescritas coletivas iniciam-se desde a Educação Infantil até as séries iniciais do Ensino Fundamental. Após este contato coletivo os alunos já podem passar a reescrever textos em duplas e individualmente. Além da reescrita, propostas de mudança no texto também podem ser oferecidas para proporcionar cada vez mais desafios para os alunos no Ensino Fundamental, até chegar a produções de autoria. Consideramos, ao realizar este trabalho, o que diz a autora Teberosky (1997, p. 96),

Muitas variações são possíveis no desenvolvimento da atividade de reescrita,

descreveremos em primeiro lugar a reescrita sem variação.

A atividade desenvolve-se da seguinte maneira:

um texto de um determinado gênero é lido para a criança,

ou ela mesma o lê, depois pede-se que ela o reescreva como estava no livro

(ou num texto-fonte de determinado gênero).

A atividade de reescrita cria, assim,

um espaço intertextual entre o texto-fonte e os textos reescritos,

que permite uma dupla comparação:

entre as escritas resultantes entre si e entre cada uma delas e o texto-fonte.

Em todas as situações de reescrita realizamos com os alunos algumas etapas: o planejamento do texto, a produção de textos intermediários (a partir de leituras e análises do texto-fonte), a textualização (escrita ou digitada) e as revisões do texto. Todas estas etapas são consideradas como conteúdos de ensino. Por exemplo, no planejamento do texto, ensinamos que, antes de escrever precisam elencar os fatos da história, para não esquecê-los na hora da reescrita. O professor ensina que um planejamento é composto de fatos que ajudam a lembrar das partes do conto e não podem ser escritos com muitos detalhes, é somente um lembrete, os detalhes ficam na própria produção de textos.

Nos textos intermediários são registrados os aspectos analisados a partir da leitura do texto modelo. Estes podem ser pré-selecionados pelo professor de acordo com as características do texto e do que foi eleito como conteúdo. Por exemplo, para a reescrita de contos de fadas, os alunos de segundo ano podem produzir um texto intermediário com os marcadores temporais que podem ser utilizados para dar coerência à história. No momento da reescrita, estes textos intermediários servem como fonte para consulta.

Veja abaixo a análise do texto “Os gnomos e o sapateiro” de Heloísa Prieto feita por alunos de 3º ano:  

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Antes de fazer a reescrita os alunos leram o texto e grifaram palavras importantes que poderiam utilizar em suas escritas – como por exemplo os marcadores temporais “Certa noite”, “De manhã”, “À meia noite”.

Também grifaram a forma como a autora utilizou os verbos: “fazê-los”, “examinou”, “intrigava-o”. Ou seja, os alunos estudaram gramática no próprio texto, para aprender a escrever bem, sem precisar fazer exercícios sem sentido.

Texto intermediário que os alunos podem consultar durante a sua produção de textos

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Destacaram do texto palavras que chamaram a atenção e que poderiam utilizar em suas escritas.

A partir deste trabalho crianças de 7 e 8 anos passaram a utilizar em suas escritas palavras mais rebuscadas e aprenderam a flexionar os verbos para não repetir palavras no texto. Por exemplo: ao invés de escrever “vender os sapatos” aprenderam a utilizar “vendê-los” já que a palavra sapatos havia sido utilizada anteriormente no mesmo parágrafo do texto.

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No texto intermediário ao lado os alunos listaram as palavras que a autora utilizou para substituir “sapateiro” e “gnomos” e desta forma não repeti-las.

Em seguida estão os marcadores temporais identificados pelos alunos. Nossos pequenos escritores aprenderam que são palavras importantes para indicar a passagem do tempo na história.   

Planejamento da reescrita: os alunos organizaram coletivamente  os episódios para suas reescritas, assim não esqueceriam de nenhuma parte do texto, garantindo a coerência do mesmo.

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No conto “Os gnomos e o sapateiro” a reescrita foi coletiva até a metade do texto e o restante foi individual. A decisão de reescrever coletivamente parte do texto foi tomada para que houvesse maior intercâmbio entre os alunos e mais intervenções da professora para garantir a aprendizagem. Diferente das redações em que o aluno recebe o título e escreve sozinho nesta proposta, como visto nos exemplos acima, há uma troca constante e vários estudos do texto antes da escrita, ou seja, os alunos realmente aprendem a escrever.

A revisão é uma etapa muito importante e os professores dispensam atenção especial neste momento, já que a formação do escritor competente depende de sua capacidade e competência para revisar o texto que escreveu. A revisão pode ser feita de várias formas: coletivamente, em duplas, com foco em determinados aspectos, pode acontecer durante a escrita e após alguns dias de distanciamento do texto.

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A dupla de alunos revisa o final do conto escrito por eles. Os alunos aprendem a ler o próprio texto e revisá-lo, ou seja, muito mais do que uma simples correção do professores, apontando erros, o processo de revisão ensina o aluno a ler o que escreveu e verificar o que pode ser melhorado.

Neste trecho, com ajuda da professora, os alunos grifam o que querem melhorar texto: aspectos ortográficos, pontuação e repetição de palavras.

Como observaram é muito complexo o trabalho com reescritas. Longe de ser uma mera cópia de um texto, o aluno analisa, observa, reflete e produz o texto observando um autor consagrado. No Interação, para a realização deste trabalho, apostamos na formação constante dos professores para garantir que trabalhem com a reescrita considerando todo o processo que envolve a leitura, a análise, a produção e a revisão de textos como meios para a formação de leitores e escritores competentes.

Bibliografia

LUIZE, Andréa. Repensando o papel das reescritas na formação do leitor e do escritor. São Paulo: CEEV, 2008 (apostila de referência do curso com o mesmo título).

TEBEROSKY, Ana. Aprendendo a escrever – Perspectivas psicológicas e implicações educacionais. São Paulo: Ática, 1997.

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